Voltemos ao Evangelho!

A ESCRAVATURA E O CRISTIANISMO

Por Marco Elias




Jesus Cristo sendo o Deus Eterno se fez homem e assumiu além da posição de servo, o oficio de sacerdote, profeta, pastor e remidor da humanidade destituída da glória de Deus. Ele escolheu nascer em um tempo em que o seu povo (Israel) era escravo do império romano.

Cristo é o maior e mais sublime exemplo de humildade. Jesus nunca propôs insurreições ou revoluções políticas, para ocupar o trono de Davi que lhe pertence por direito eterno. Em sua vida terrena mesmo tendo o sangue da realeza judaica por parte da mãe que era da casa de Davi, Jesus nunca reclamou para si o trono de Herodes, de Pilatos ou dos césares. Certa vez ao ser questionado se os judeus deveriam pagar tributo aos romanos Jesus respondeu: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Leia a passagem completa aqui ► Mateus 22:17-22).

A Bíblia nos deixa claro que o objetivo de Cristo nunca foi tomar parte nos reinos deste mundo, mas sim resgatar o pecador da condenação eterna. Após a assunção de Cristo a igreja tornou-se o instrumento de Deus, dirigido pelo Espírito Santo dado por Cristo para continuar o trabalho de resgate das almas perdidas. Resgatar almas perdidas é o único serviço da igreja. Quando ela perde este propósito, ela já não pode ser mais chamada de igreja fiel.

Quando o Espirito Santo se derrama sobre um cristão, ele sente vontade de libertar o seu próximo, quebrar as correntes e retirar as suas algemas. A providencia de Deus permitiu que um escravo chamado Onésimo fugisse de seu senhor chamado Filemon e se convertesse a Cristo. Paulo o mandou retornar à casa de seu senhor, mas ordenou que seu senhor agora convertido a Cristo não tratasse seu escravo como tal, mas como irmão em Cristo e assumiu toda a dívida, toda a culpa que na lei daquela sociedade caberia a Onésimo. (Confira aqui ► Filemom 1) Aquele mesmo Paulo que nos chama para sermos seu imitador como ele é imitador de Cristo conhecia profundamente as palavras de seu mestre querido: “conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A verdade de Deus liberta o homem em todos os sentidos. No texto de I Coríntios 7:21-23 Paulo dá a entender que a função do evangelho é tornar o pecador um liberto de Cristo e estabelece que aquele que está na condição de escravo (isto era comum na sociedade de sua época) poderá aproveitar as oportunidades para serem libertos.

A igreja primitiva seguiu a Cristo bem de perto o imitando em tudo. Aquela igreja nunca foi senhora do mundo, nunca participou de nenhuma revolução política, nunca estabeleceu ou derrubou governos e nunca entrou em negócios que não lhe cabia. A igreja primitiva servia a Deus e dava a vida pelas almas dos homens.

A ESCRAVATURA DENTRO DA IGREJA CATÓLICA

Na linha do tempo da história do cristianismo, sempre que a igreja deixou de seguir a direção do Espírito Santo e se envolveu com os reinos deste mundo, ela perdeu o rumo e deixou de ser fiel. Foi assim sob o império de Constantino, tempo em que a igreja casou-se com o estado e tornou-se senhora do mundo. O paganismo passou a habitar no templo e a marcar presença no culto. Uma igreja com este tipo de culto e este nível de apostasia torna-se o terreno fértil para a prática e a defesa da escravatura. Foi isto que aconteceu.

Vários mestres do catolicismo começaram a apoiar abertamente a escravatura, isolando textos bíblicos do seu contexto histórico e cultural e desconsiderando a mensagem libertadora do evangelho.

"Escravidão entre os homens é natural, porque alguns são escravos naturalmente, de acordo com o Filósofo (Polit. i, 2). Agora, a escravidão pertence ao direito das nações, como diz Isidoro (Etym, v.4). Portanto os direitos das nações é um direito natural." - Tomás Aquino, Summa Theologica, "On justice".

"Certamente é uma questão de fé que esse tipo de escravidão em que um homem serve seu mestre como seu escravo, seja totalmente legal. Ela é provada pelas Sagradas Escrituras. Também é provado pela razão porque é razoável que todas as coisas que são capturadas em uma guerra justa passam o poder e a propriedade para os vitoriosos, então pessoas capturadas em uma guerra passam a ser propriedades dos captores. Todos os teólogos são unânimes quanto a isso." - Papa Gregório IX, Quaestiones Morales Theologicae, Lyons 1668 - 1692, Tome VIII, De Quarto Decalogi Praecepto, Tract. IV, Disp. I, Q. 3

"A escravidão em si, considerada em sua essência natural, de forma alguma contraria as leis naturais e divinas... Não é contrário às leis naturais e divinas vender, comprar, trocar ou dar um escravo." - Instrução 20, O Santo Ofício (Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé), 20 de junho de 1866

A VERGONHOSA ESCRAVATURA DENTRO DA IGREJA PROTESTANTE (REFORMADA)

Seria esperado que a igreja reformada fosse diferente em relação à escravatura, mas não foi isto que aconteceu. Enquanto a igreja católica autorizou e incentivou a escravidão nos países católicos da América Latina, nos Estados Unidos a participação das igrejas protestantes no regime escravocrata, (principalmente as calvinistas) foi cruel e alguns “grandes” homens das igrejas do Sul, tais como o famoso Rev. James Thornwell (Igreja Presbiteriana - USA), Pr. Richard Furman (Igreja Batista sul), juntamente com outros “grandes” nomes da igreja racista do sul lideraram a LUTA A FAVOR DA ESCRAVIDÃO e contra o abolicionismo, para vergonha daqueles que insistem em me dizer que o calvinismo cessacionista é o evangelho.

"Se possuir escravos fosse um mal moral, não se pode supor que os Apóstolos inspirados, que não temiam homem algum, e estavam prontos para entregar as suas vidas para a causa de Deus, teriam tolerado por um momento sequer dentro da Santa Igreja... ao provar esse tema justificado pela autoridade das Escrituras, a sua moralidade também é provada, pois a Lei Divina nunca sanciona ações imorais" - Pastor Dr. Richard Furman, Presidente da Convenção Estadual Batista da Carolina do Sul, Exposition of the Views of the Baptists, Relative to the Coloured Population in the United States in a Communication to the Governor of South Carolina (1838)

"Agora, meu caro senhor, se, dadas as evidências contidas na Bíblia que provam a legalidade da escravidão entre o povo de Deus em qualquer dispensação, a assertiva ainda é feita, mesmo à mostra dessas evidências, de que a escravidão já foi um dia o maior pecado - em qualquer lugar e sob quaisquer circunstâncias - pode você, ou qualquer homem são acreditar que a mente capaz de tal decisão, não é capaz de pisotear a Palavra de Deus em qualquer outro assunto?" - Pastor Thomas Stringfellow, A Brief Examination of Scripture Testimony on the Institution of Slavery (Locust Grove, VA, 1841)

"Nós temos uma grande lição para ensinar ao mundo sobre as relações entre as raças: que certas raças são permanentemente inferiores às suas capacidades que outras, e que os Africanos que estão em nossos cuidados só conseguem atingir a quantidade de civilização e desenvolvimento que são capazes - podem apenas contribuir para o benefício da humanidade na posição em que Deus os colocou para nós (isto é, a de escravos)" - Reverendo James Warley Miles, God in History: A Discourse Delivered Before the Graduating Class of the College of Charleston (March 29, 1863).

JOHN WESLEY, CHARLES FINNEY E A CAUSA ABOLICIONISTA

Deus controla o motor da história. Assim como Deus levantou Lutero para acender o estopim da reforma protestante, ELE também levantou homens como John Wesley (1703 -1791), (fundador do metodismo) e Charles Finney (1792-1875), um ex-ministro presbiteriano que pulou para fora do calvinismo e começou a negar a ceia e a comunhão da igreja para os praticantes do tráfico negreiro. Com estes dois homens no púlpito, o senso real de justiça contido no bojo do cristianismo de Cristo (isto era diferente da religião escravocrata dos homens) começou a ecoar dos púlpitos das igrejas e milhões de almas de todas as etnias, inclusive os negros que regaram a terra com sangue a serviço da burguesia americana, agora começavam a vislumbrar a glória de Deus e a compor louvores maravilhosos de gratidão a Deus. Graças ao envolvimento da igreja na causa abolicionista a escravidão teve fim na América em 1863, apesar dos protestos dos outros “cristãos” reformados que não queriam libertar seus escravos. Vejamos algumas músicas de gratidão a Deus produzidas pelos filhos dos escravos americanos.

Swing Low, Sweet Chariot - The Southern Four - É uma música cristã, o carro está se referindo a Elias sendo levado aos céus por uma carruagem (em II Reis 2:11) e o rio Jordão se refere, como o escritor da canção havia falado, à vitória dos judeus quando passaram o rio para possuir sua terra, após escaparem da escravidão do Egito. O mesmo Jordão foi testemunha do arrebatamento de Elias. Este relato bíblico era relevante no momento em que a canção foi escrita, tendo em vista as circunstâncias que cercavam a escravidão nos Estados Unidos. Assim, um grito de liberdade tornou-se um clássico do blues. O áudio abaixo foi gravado em 1929.  

OUÇA A MÚSICA ►

The St. Louis Blues - W. C. Handy  - Blues é uma forma musical vocal e/ou instrumental que se fundamenta no uso de notas tocadas ou cantadas numa frequência baixa, com fins expressivos, evitando notas da escala maior, utilizando sempre uma estrutura repetitiva. Nos Estados Unidos surgiu a partir dos cantos de fé religiosa, chamadas “spirituals” e de outras formas similares, como os cânticos, gritos e canções de trabalho, cantados pelas comunidades dos escravos libertos, com forte raiz estilística na África Ocidental. Suas letras, muitas vezes, incluíam sutis sugestões ou protestos contra a escravidão ou formas de escapar dela. Foi nesse ambiente em solo americano que brotaram algumas das mais belas canções evangélicas que conhecemos.
OUÇA A MÚSICA ►

O AVIVAMENTO PENTECOSTAL, A MULHER NO PÚLPITO POR NECESSIDADE E A LIBERTAÇÃO GENUÍNA DOS GRUPOS AFRO-AMERICANOS

O movimento Pentecostal começou em 1906. Apesar de estarem livres da escravatura (desde 1863) os negros que quisessem eram obrigados a assistir ao culto vendo-o pela janela do lado de fora do templo. Os negros não podiam entrar na congregação juntamente com os brancos. Eram considerados inferiores.

Na igreja da Azuza Street não havia este tipo de segregação. Conforme a igreja ia crescendo, as mulheres tiveram que arregaçar as mangas e trabalhar juntamente com os homens. Tornaram-se pregadoras, editoras de revistas e jornais pentecostais e inevitavelmente pastoras, para suprir as necessidades do rebanho que não parava de crescer. A seara era grande, os ceifeiros eram poucos e os ministros das igrejas tradicionais americanas eram racistas, rejeitaram e desprezaram o avivamento.

No culto pentecostal da Azuza Street não havia separação entre brancos e negros, todos eram iguais e o batismo com o Espirito Santo veio sobre todos independente de sexo e cor da pele, cumprindo literalmente a profecia de Joel. A igreja reunida entendeu que não poderia barrar o ministério feminino, considerando que Deus derramara o Espirito Santo sobre as mulheres também. Estas características da nova igreja não agradaram aos filhos dos antigos senhores de escravos que não suportavam a ideia de congregar em igrejas em que negros e mulheres podiam pregar a palavra de Deus. Mais uma vez na história do povo de Deus, a luz estava acesa na casa dos escravos. Outros povos de várias nações viriam de longe acender a sua tocha com aquele fogo!

Da rua Azuza o legado pentecostal espalhou-se pelo mundo, levando o ideal que a salvação está disponível a todos os homens, independentemente da cor da sua pele ou da sua posição social.

Para um cristão que conhece as origens do cristianismo que professa é impossível não associar a imagem dos antigos senhores de escravos da igreja racista americana com alguns ministros cessacionistas e falastrões da atualidade.

Que Deus nos abençoe!

Referência Bibliográfica
Bíblia Sagrada - SBB - 1995 - João Ferreira de Almeida
Jornal Los Angeles Times - Matéria de capa sobre a Azusa Street Mission - 18/04/1906
Músicas obtidas através da biblioteca pública do congresso americano - https://www.loc.gov/
As citações apresentam fontes.

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